COMO SABER SE ALGO TEM OU NÃO INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Todos sabem dizer se uma determinada camisa possui um tecido listrado ou xadrez. Fazer essa diferenciação não é um problema difícil, uma vez que se sabe como é cada um desses dois padrões. Neste artigo procura-se definir o que é inteligência artificial, para que do mesmo modo como no problema da camisa, seja possível saber se algo tem ou não inteligência artificial.

A empresa sul-coreana LG apresentou em janeiro de 2018 na CES (Consumer Electronics Show) uma série de produtos tais como máquinas de lavar, aspiradores de pó e condicionadores de ar, que ela diz fazerem uso de uma inteligência artificial na realização de suas tarefas. Mas a LG não é a única empresa a anunciar produtos que utilizam inteligência, há muitos outros casos recentes tais como Uber, Tesla, Facebook e Google.

Mas o que torna esses produtos inteligentes? Como é possível diferenciar, por exemplo, um condicionador de ar inteligente de outro que não é inteligente? O que pode ser considerado inteligência artificial?

Em vários livros que tratam sobre o tema, observa-se que a definição do conceito de inteligência artificial pode apresentar algumas divergências em razão de diferentes pontos de vistas. Em Russell e Norvig (2013), por exemplo, é sugerido que as diferentes definições para o conceito possam ser organizados em quatro categorias:

  • Sistemas que pensam como os humanos;
  • Sistemas que se comportam como os humanos;
  • Sistemas que pensam de maneira racional;
  • Sistemas que se comportam de maneira racional.

Russell e Norvig (2013) reforçam ainda que ao fazerem essa distinção humano-racional, não querem dizer que humanos sejam irracionais, mas que simplesmente são seres imperfeitos e podem errar ao tomar uma decisão. Há uma séries de fatores externos e limitações que são características de cada ser humano e que podem fazer com que a razão de um se difira da razão de outro. Para a abordagem racional, só há uma razão. Das quatro categorias mencionadas, a definição de inteligência artificial usada por eles pertence à última.

No entanto, até este ponto do texto, a pergunta sobre o que significa inteligência continua em aberto. Artero (2009) relacionou definições de inteligência mencionadas por vários autores. Algumas dessas definições podem ser relacionadas e por isso foram selecionadas para serem reproduzidas no Quadro 1. Nesse quadro, na coluna à esquerda há uma definição para inteligência e na coluna à direita contém o autor que a mencionou.

Quadro 1 – Definições para inteligência

DefiniçãoAutor
“A faculdade de aprender e compreender; Percepção; Qualidade de compreender e adaptar-se facilmente; Capacidade de resolver situações problemáticas novas mediante reestruturação dos dados perceptivos”Dicionário Aurélio
“Conceituar e compreender o significado dos objetos”Tearman
“Compreensão do essencial de uma situação e numa resposta reflexa apropriada”Helm
“Capacidade agregada ou global de um indivíduo agir com o propósito de pensar racionalmente e de se adaptar eficientemente ao ambiente”Welchsler
“Uma adaptação ao ambiente físico e social”Piaget

Nesse quadro estão as observações dos referidos autores sobre o que pode ser considerado inteligência. Logo, pode ser entendido que inteligência artificial é a reprodução dessas características em máquinas, por meio do uso de alguma técnica.

Em Artero (2009), a definição para inteligência artificial consiste no “estudo de como fazer os computadores realizarem tarefas que, no momento, as pessoas fazem melhor, o que inclui a capacidade de adquirir e aplicar conhecimentos aprendidos”.

A relação que existe entre os conceitos relacionados no Quadro 1 e também a definição para inteligência artificial seguida em Artero (2009) é o acrônimo PAAA (Percepção, Adaptação e Ação Autônoma).

Reflita sobre a seguinte questão: O que diferencia um robô inteligente de um robô comum?

Espera-se que um robô inteligente aja de modo “autônomo”, sem o uso de controle remoto por um humano. Para que isso seja possível, o robô necessita estar provido de sensores que permita “perceber” o ambiente, “adaptar-se” às condições oferecidas por esse ambiente e “agir”.

No caso do condicionador de ar, mencionado no início deste artigo, o recurso inteligente que o aparelho possui é o de aprender a temperatura preferida nos diferentes horários do dia e reproduzir estas configurações. Já as referidas máquinas de lavar são capazes de reconhecer os tipos de tecidos e decidir o ciclo de lavagem mais adequado (VELOSO, 2018). Do mesmo modo, é possível perceber a presença do acrônimo PAAA nesses recursos. Ambos os aparelhos devem dispor de sensores que permitam medir a temperatura do ambiente em diferentes horários ou para reconhecer os tipos dos tecidos (PERCEPÇÃO). Deve se ADAPTAR às preferências de ar condicionado do usuário ou aos tipos identificados dos tecidos. E, por fim, deve AGIR AUTONOMAMENTE para ajustar suas configurações e realizar suas respectivas tarefas, se adaptando ao que foi percebido.

Com o que foi apresentado neste artigo, espera-se que agora fique mais fácil identificar quais produtos fazem uso ou não de inteligência artificial. E se fizer uso de inteligência artificial, saber identificar qual foi a fonte de inspiração dessa inteligência: os seres humanos ou a racionalidade.

PROVOCAÇÕES

No filme “Eu, robô”, lançado pela Fox em 2004 e que conta com o protagonismo do ator Will Smith, é possível perceber as diferenças entre duas das quatro categorias sugeridas em Russell e Norvig. Você conseguiu identificar essas categorias no filme? Quais categorias você acredita que estava presente no filme? Que diferenças entre elas puderam ser observadas por você?

COMO CITAR

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ABNT

VILLANI, L. Como saber se algo tem ou não inteligência artificial. Descomplicando a inteligência artificial, 2018. Disponível em: <https://www.leonardovillani.com.br/artigos/como-saber-se-algo-tem-ou-nao-inteligencia-artificial/>. Acesso em: 01 jun. 2018.

BIBTEX

@ONLINE {VILLANI2018,
    author = "VILLANI, L.",
    title  = "Como saber se algo tem ou não inteligência artificial",
    month  = "jun",
    year   = "2018",
    url    = "https://www.leonardovillani.com.br/artigos/como-saber-se-algo-tem-ou-nao-inteligencia-artificial/"
}

REFERÊNCIAS

ARTERO, A. O. Inteligência artificial: teoria e prática. 1 ed. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2009.

CARVALHO, L. Uber passa a usar algoritmo de inteligência artificial para proteger motoristas. Olhar Digital, 2018. Disponível em: <https://olhardigital.com.br/fique_seguro/noticia/uber-passa-a-usar-algoritmo-de-inteligencia-artificial-para-proteger-motoristas/75410>. Acesso em: 20 abr. 2018.

GALILEU, Redação. Robô do Google cria inteligência artificial melhor que qualquer humano. Revista Galileu, 2017. Disponível em: <https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/12/robo-do-google-cria-inteligencia-artificial-melhor-que-qualquer-humano.html>. Acesso em: 20 abr. 2018.

VELOSO, T. LG aposta em inteligência artificial ThinQ e casa conectada na CES 2018. Techtudo, 2018. Disponível em: <https://www.techtudo.com.br/noticias/2018/01/lancamentos-da-lg-na-ces-2018-conhecas-novidades-da-fabricante.ghtml>. Acesso em: 20 abr. 2018.

NOVET, J. Elon Musk told party attendees that Tesla is making A.I. hardware that could be ‘the best in the world’. CNBC, 2017. Disponível em: <https://www.cnbc.com/2017/12/08/elon-musk-talks-up-teslas-upcoming-artificial-intelligence-hardware.html>. Acesso em: 20 abr. 2018.

RUSSELL, S. J.; NORVIG, P. Inteligência Artificial. Tradução Regina Célia Simille. 3 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.

TRIVEDI, U.; RAI, S. Facebook vai apagar vídeos ofensivos com inteligência artificial. Exame, 2018. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/tecnologia/facebook-vai-apagar-videos-ofensivos-com-inteligencia-artificial>. Acesso em: 20 abr. 2018.

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